Aconteceu há dias algo de terrível. Estava a dar uma aula quando a Leocardina, uma das minhas alunas, apareceu à porta da sala a chorar para me dizer que o irmão dela tinha sido atacado e, segundo entendi na altura, acabado por morrer dos ferimentos. Por isso, iria faltar nos dias seguintes porque ia acompanhar o corpo até ao enclave de Oecussi, onde vive o resto da família. Na verdade, como acabei por perceber mais tarde, fora um primo quem morrera, tendo outro primo ido parar ao hospital e o irmão (que era o alvo do ataque) escapado ileso. Foram esfaqueados na sua própria casa, uma residência para estudantes de Oecussi, durante uma falta de luz nocturna. Ao que parece, o ataque deveu-se a uma questão de namoradas e ciúmes, mas o que realmente impressiona é a facilidade com que ainda se mata e se morre por estes lados. Claro que se há coisa que não falta em Portugal são histórias de sacholadas gratuitas por causa de limites de terrenos, mas não deixa de ser significativo que, passando cá dois meses, aconteça uma coisa deste género a alguém relativamente próximo. Dispensei os alunos da aula da tarde e acompanhei-os até ao porto, onde se realizou uma pequena cerimónia com os amigos do rapaz assassinado. Nós fomos lá para demonstrar o nosso apoio à Leocardina, sobretudo porque ainda julgávamos que a vítima fora o irmão. Foi bastante perturbador. Estava um calor terrível, por volta das 16h, e a cerimónia foi tudo menos contida: apareceram talvez uns duzentos amigos do rapaz e da família e havia muita gente a gritar e em desepero. Enquanto esperávamos que a Leocardina chegasse, estive à conversa com outro dos meus alunos, o Augusto “Che” Godinho, cuja alcunha é, claro, uma referência ao “Che” original. A propósito, é impressionante ver como os timorenses idolatram o Che Guevara: é raro o dia em que nenhum dos meus alunos enverga uma t-shirt do Che e, por Timor inteiro, estamos sempre a encontrar posters, imagens e autocolantes com a sua imagem pelas paredes das casas, táxis e mikrolets (os mini-autocarros de cá). Esta conversa com o Augusto não ajudou nada a aligeirar o ambiente. Contou-me como se passaram as coisas em 1999, após o referendo e na altura da violência das milícias. Ele próprio abandonou Díli dois dias depois do anúncio dos resultados do referendo, quando as milícias já haviam começado a sua estratégia de terra queimada, assassinando centenas de pessoas e queimando e arrasando a maior parte dos edifícios. Antes de conseguir fugir, ainda passou por um grande aperto quando um miliciano que o vira a comemorar a vitória da independência no referendo lhe perguntou porque andava tão contente. O Augusto limitou-se a baixar a cabeça e a esperar o pior, mas o outro acabou por dizer-lhe para ir para casa e não voltar a manifestar-se. Ao regressar a Díli após duas semanas passadas na montanha, quando a força de intervenção multinacional já havia desembarcado, ficou a saber que um seu tio – famoso boxeur timorense pró-independentista – havia sido assassinado, juntamente com dezenas de outras pessoas, precisamente no local onde nos encontrávamos. Tinham ido para o porto para tentarem fugir de barco, mas foram cercados e massacrados antes de o conseguirem fazer. Nesta atmosfera irreal, foi então que ficámos a saber que a vítima fora afinal o primo e que os dois dos três assassinos até haviam já sido apanhados pela polícia. Acompanhámos a partida do barco, regressando depois a casa com um peso imenso em cima dos ombros e uma estranha sensação de paraíso perdido.
Thursday, November 24, 2005
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