Thursday, November 03, 2005

Vida quotidiana


Vivo na casa 3 do bairro da cooperação, em Colmera, Díli. A minha casa fica a cinco minutos a pé da universidade e a quatro do Liceu Francisco Machado, edifício restaurado pela CMLisboa onde dou as minhas aulas por falta de salas no edifício da UNTL. Na verdade, demoro menos do que isso, porque vou sempre na bicicleta que comprei e que deixo à porta da sala.
Vivo com cinco colegas: três da minha idade e dois um pouco mais velhos (e bastante mais experientes). A casa é bastante boa – sobretudo em comparação com as restantes casas de Díli, como é evidente. Temos um gerador próprio no bairro, que garante que não há quebras de corrente, água corrente não potável mas constante e suficientemente pouco inquinada para que se possa usar para lavar a louça, uma televisão que passa a TVTL (e a Praça da Alegria fora do horário normal de emissão, o que nos faz mesmo sentir como emigrantes...!), quartos individuais pequenos mas simpáticos com mosquiteiro e ar condicionado, entre outros pequenos luxos de expatriados...
Outro luxo é trabalharem cá em casa duas senhoras, a Filomena e a Isabel, a primeira paga pela Cooperação Portuguesa para tratar das limpezas das várias casas e a outra contratada por nós para passar a roupa e fazer as refeições. Embora comamos algumas vezes fora (nalguns casos, mesmo muito bem), fazemos a maior parte das refeições em casa por uma questão de poupança. No outro dia, a Filomena revelou um talento insuspeito: acordei bastante indisposto por ter ficado até tarde à conversa com bastantes gin tónicos pelo meio, que se devem ter combinado no fígado com a mefloquina para me deixar entre o agoniado e o levemente deprimido. Para ajudar, o portátil parecia estar com problemas: o leitor de CD-Rom recusava-se a funcionar e o computador bloqueava no arranque por não conseguir perceber se lá tinha algum disco de sistema ou não. Por ser certamente impossível encontrar maneira de o reparar cá em Timor, e porque deixar de contar com o portátil seria dramático para a preparação das aulas e sobretudo para a tese, devia estar com uma expressão mesmo desanimada. A Filomena deve ter-se apercebido disso e perguntou-me se estava tudo bem. Quando lhe expliquei o que se passava, disse-me para me deitar e relaxar – e fez-me uma massagem fantástica, segundo parece utilizando as técnicas que aprendeu com a avó. Segundo disse, como a família está longe, as pessoas com quem estamos no dia-a-dia têm de ser um pouco como uma família longe de casa. Também me tacteou o interstício entre o polegar e o indicador de cada uma das mãos, para poder fazer um diagnóstico geral de maneira tradicional. Aparentemente, o coração está bem e o sangue flui como deve, mas tenho de aprender a ter mais calma e não andar sempre tão tenso. Não me parece que este diagnóstico tivesse muitas hipóteses de errar, fosse qual fosse a técnica utilizada, mas a massagem foi realmente eficaz, pelo menos a sua capacidade de sugestão é bastante boa e não há dúvida que foi muito simpática. Criei foi bastante inveja entre os meus colegas. Agora toda a gente quer massagens da Filomena, e muitos até se andam a aplicar mais no gin tónico para os seus casos serem mais convincentes, mas até agora ela tem sido inflexível. Só aplica os seus talentos com a família ou quando acha que se justifica mesmo, embora aparentemente seja bastante solicitada tanto pelos vizinhos e conhecidos como pelos residentes no bairro da cooperação. Fiquei muito mais bem disposto, a ressaca do gin mefloquínico passou e até o computador ficou subitamente impecável, embora este último dificilmente se deva à Filomena.

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