Thursday, November 03, 2005

As aulas


O extravio da bagagem não foi uma preocupação que me tocasse, mas não faltaram outras para compensar nos primeiros tempos: cheguei a Timor numa situação de relativo desconhecimento do que me esperava em relação ao funcionamento das aulas, sem o jogo de cintura que alguma experiência docente anterior me poderia dar e com uma tese de mestrado para acabar de escrever (segundo pensava à altura, nos 20 dias que me restavam até ao final de Outubro). Por receio de esgotar rapidamente o que tinha para dizer, preparei por excesso a primeira aula de cada uma das minhas duas cadeiras. Foi realmente por excesso, pois acabei por demorar mais de uma semana a dar essa matéria. Assim comecei aos poucos a descobrir que, efectivamente, os alunos sabem por regra menos que os professores... e que, por isso, aquilo que parece mais ou menos evidente para quem já sabe pode sê-lo muito menos para quem está a aprender. Se isto é quase sempre verdade, é-o certamente muito mais no caso dos meus alunos timorenses. São mesmo muito simpáticos e a maior parte tem realmente vontade de aprender, mas a falta de preparação é impressionante. O domínio do Português é confrangedor, o nível de cultura geral assustador e os conhecimentos de Economia estão mais ou menos ao nível do ensino secundário. Não estou a exagerar: passadas três semanas de aulas, poderia dar dúzias de exemplos, mas para dar uma ideia de como as coisas se passam, basta dizer que ninguém na turma fazia a mínima ideia da diferença entre votos brancos e abstenção ou que muitos não sabiam o que é ou para que serve um cheque (o que é especialmente engraçado para quem ensina Economia Monetária), para já não falar de conceitos elementares de economia como custo de oportunidade, economia de mercado e outras coisas do género... Por isso, tive de repensar a forma como iria dar as aulas, tendo-me decidido finalmente por um modelo em que reparto o tempo em partes mais ou menos iguais entre a matéria das cadeiras, a explicação do significado das palavras e conceitos utilizados para dar essa matéria e questões de cidadania e cultura geral. Obviamente, ficarei bastante longe de dar todo o programa que tinha pensado originalmente e que se baseara no que os professores do ano anterior tinham dado. Claro que, à luz do que sei agora, parece-me impossível que esses programas não sejam óptimas obras de ficção. Das duas, uma: ou os programas foram dados da maneira indicada nos relatórios, que é bastante próxima do ritmo das universidades portuguesas, e ninguém percebeu absolutamente nada; ou os professores optaram (sensatamente, na minha opinião) por dar menos matéria e garantir que os alunos realmente a aprendiam, mas por alguma razão sentiram-se na necessidade de disfarçar essa opção.
Assim correm as aulas neste momento – tentando descortinar novos níveis de simplicidade na explicação da matéria, com uma grande componente de ensino de português e com ocasionais digressões de meia hora para ensinar coisas que bacharéis (como eles em princípio serão no final deste ano) não podem realmente deixar de saber. Na verdade, são essas as que me dão mais gozo. Numa das últimas, apelei à tradição geográfica familiar e, a propósito do desconhecimento da parte deles do que eram as estações do ano, acabei por passar meia hora a falar de rotação, translacção, latitude, longitude, trópicos, equinócios, eclipses, etc. Foi mesmo muito recompensador: alguns ficaram de boca aberta ao saber que a terra anda à volta do sol. No final, disseram-me que era melhor a ensinar geografia do que economia. Como não sei bem se queriam dizer “ainda melhor”, confesso que fiquei um pouco preocupado...

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